segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A Carta de Samantha Reed Smith

     Samantha Reed Smith foi uma simples menina americana, mas que com apenas 10 anos conseguiu amenizar as crescentes tensões entre os EUA e União Soviética em plena Guerra Fria. Em 1982 Samantha enviou uma carta para o Secretário-Geral do partido soviético, onde defendia a melhora das relações entre os dois países e questionava a posição dos russos em relação a uma possível guerra nuclear.
     Ao receber a carta o então Secretário-Geral do partido soviético na Rússia Yuri Andropov não só ficou comovido com a carta, mas mandou publicá-la no maior jornal da Rússia, o Pravda. Então a notícia correu mundo afora fazendo com que americanos e soviéticos repensassem nesses conflitos e nos perigos de uma possível guerra nuclear e fez com que a jovem Samantha se tornasse um tipo de "Embaixadora da Paz" entre as duas nações, sendo até convidada pela União Soviética a passar duas semanas em Moscou com os pais . Nessa viagem ela foi tratada com atenção e acompanhada pelas imprensas dos dois países, conheceu Leningrado e outras cidades onde fez vários amigos e até deu um fora na cosmonauta russa Valentina Tereskhova*. Após visitar a Rússia visitou também o Japão, onde partricipou de movimentos pacifistas.
     A partir daí a jovem escreveu um livro e até participou de um seriado de TV da Disney, sobre política, onde chegou a entrevistar os candidatos a presidência na época, mas sua vida foi demasiadamente curta. Morreu em 1985, aos 13 anos, num acidente aéreo e hoje há uma estátua em sua homenagem em Augusta, sua cidade-natal além de uma fundação. Também teve o rosto estampado em uma série de selos russos.
     Pra quem ficou curioso aí vai o texto da carta ao Secretário-Geral do Partido Soviético, Yuri Andropov e a resposta deste:


Prezado Sr. Andropov,
Meu nome é Samantha Smith. Tenho dez anos de idade. Parabéns pelo seu novo emprego. Eu estou preocupada sobre a Rússia e os Estados Unidos estarem se preparando para iniciarem uma guerra nuclear. O senhor votará para que haja uma guerra ou não? Se não, por favor diga-me como o senhor vai ajudar a não haver uma guerra. O senhor não precisa responder esta pergunta, mas eu gostaria de saber por que o senhor quer conquistar o mundo ou pelo menos nosso país. Deus fez o mundo para nós vivermos juntos em paz e não para brigarmos.
Sinceramente,
Samantha Smith


Prezada Samantha,
Eu recebi a sua carta, que é como muitas outras que me chegaram recentemente vindas do seu país e de outros países ao redor do mundo.
Parece-me, eu posso dizer pela sua carta, que você é uma menina corajosa e honesta, assemelhando-se a Becky, a amiga de Tom Sawyer no famoso livro de seu compatriota Mark Twain. Este livro é bem conhecido e amado no nosso país por todos os meninos e meninas.
Você escreve que está ansiosa sobre se vai haver uma guerra nuclear entre os nossos dois países. E você pergunta o que nós estamos fazendo alguma coisa para não haver a guerra.
Sua pergunta é a mais importante de todos aquelas que colocam o homem a pensar. Eu vou responder-lhe de forma séria e honesta.
Sim, Samantha, nós da União Soviética estamos fazendo de tudo para que não haja guerra na Terra. Isso é o que todos soviéticos querem. Isso é o que o grande fundador do nosso estado, Vladimir Lenin, nos ensinou.
Os soviéticos sabem bem que a guerra é uma coisa terrível. Quarenta e dois anos atrás, a Alemanha nazista, que atentou à supremacia sobre todo o mundo, atacou o nosso país foi, queimou e destruiu milhares de nossas cidades e aldeias, mataram milhões de soviéticos: homens, mulheres e crianças.
Nessa guerra, a qual terminou com a nossa vitória, nós estávamos em aliança com os Estados Unidos: juntos nós lutamos para a libertação de muitas pessoas dos invasores nazistas. Eu espero que você saiba sobre esta história das suas aulas na escola. E hoje nós queremos muito mais viver em paz, para negociar e cooperar com todos os nossos vizinhos nesta terra, com os distantes e os próximos. E certamente com um grande país como os Estados Unidos da América.
Na América e no nosso país existem armas nucleares, armas terríveis que podem matar milhões de pessoas em um instante. Mas nós não queremos que elas sejam sempre utilizadas. Essa é precisamente a razão pela qual a União Soviética solenemente declarou por todo o mundo que nunca, nunca, irá utilizar primeiro as armas nucleares contra qualquer país. Em termos gerais, nós propomos interromper a produção delas e ainda a proceder à supressão de todo o seu estoque existentes na Terra.
Parece-me que esta é uma resposta suficiente à sua segunda pergunta: “Por que vocês querem uma guerra contra o mundo inteiro ou, pelo menos, contra os Estados Unidos?”. Nós não queremos nada disto. Ninguém em nosso país, tampouco os trabalhadores, os camponeses, os escritores, nem os médicos, muito menos os adultos ou as crianças, nem os membros do governo, de modo idêntico queremos uma grande ou “pequena” guerra.
Nós queremos a paz, há algo maior para nos ocuparmos como: o cultivo de trigo, construindo e inventando, escrevendo livros e voar para o espaço. Nós queremos a paz para nós mesmos e para todos os povos do planeta. Para os nossos filhos e para você, Samantha.
Eu convido você, se seus pais a permitirem, para vir ao nosso país, nesta melhor época, o verão. Você terá informações sobre o nosso país, encontrará com seus contemporâneos, visitará um acampamento internacional para crianças, o Artek, que fica perto do mar
Obrigado pela sua carta. Eu desejo-lhe as maiores felicidades na sua vida.
"Y. Andropov"
 * A então cosmonauta Valentina Tereskhova ligou para Samantha que por não saber de quem se tratava teve apenas ma breve conversa e desligou logo depois.

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